Se você disser para um passarinho que ele nasceu para voar, provavelmente ele não ficará supreso.Com a delicadeza e polidez que só os passarinhos possuem, responderá que há anos já sabia disso, e que este fato – o de saber a quê veio ao mundo – o fazia bem.
Se disseres para uma pedra que sua função é a de permanecer parada e impermeável pela eternidade, conformada com o fato de que talvez – e apenas talvez – alguma chuva ou pé humano a troque de lugar, a reação será parecida. Provavelmente ela será um pouco dura, mas te dirá que já sabia disso. E que ela, assim como inúmeras outras criaturas, têm sua visível e eloquente missão. Que se sentem bem com tamanha obviedade, porque é mais seguro e sensato viver em um mundo onde as coisas fazem sentido.
Mas por que eu, tão representante da espécie, tão humana para os humanos quanto um passarinho é para os passarinhos, ainda não me conformei com a minha função? Porque a minha função é me render. E a rendição é uma piada. Suja e mal contada.
Faça o favor, “se render” não entra sequer em lista de resoluções de ano novo. Não cabe em livros de auto-ajuda, não exerce o direito da lógica. Só cai bem em contratos ingênuos de sociedade, em que um sempre dá no pé e o outro sempre dá no prejuízo.
Mas se você vier numa tarde dessas dizer que fui feita para me render, eu não vou ficar surpresa. Assim como para pedras, passarinhos, flores e nuvens, ouvir minha função depois de tantos anos soará um pouco óbvio. Mas se render é coisa para vítima de assalto. É propósito de gente sem propósito. Coisa de gente que ama sem medida, e amar sem medida é tomar xarope de cereja aos litros: bom, mas não faz bem. Rendição é assunto para fracos, para sonhadores, para os deficientes do bom e velho orgulho. É coisa de gente que ficou com um coração tão vazio, mas tão vazio, que cabe uma pessoa inteirinha ali.
E apesar dos pesares, esta é a minha função. O que me conforta por me dar um propósito, mas me judia por nunca fazer sentido. É o trabalho que eu mais sei fazer no mundo, mas que, inacreditavelmente, nunca consegui ensinar pra ninguém.
Vai ver eram pedras. Ou, sei lá, passarinhos.
Se disseres para uma pedra que sua função é a de permanecer parada e impermeável pela eternidade, conformada com o fato de que talvez – e apenas talvez – alguma chuva ou pé humano a troque de lugar, a reação será parecida. Provavelmente ela será um pouco dura, mas te dirá que já sabia disso. E que ela, assim como inúmeras outras criaturas, têm sua visível e eloquente missão. Que se sentem bem com tamanha obviedade, porque é mais seguro e sensato viver em um mundo onde as coisas fazem sentido.
Mas por que eu, tão representante da espécie, tão humana para os humanos quanto um passarinho é para os passarinhos, ainda não me conformei com a minha função? Porque a minha função é me render. E a rendição é uma piada. Suja e mal contada.
Faça o favor, “se render” não entra sequer em lista de resoluções de ano novo. Não cabe em livros de auto-ajuda, não exerce o direito da lógica. Só cai bem em contratos ingênuos de sociedade, em que um sempre dá no pé e o outro sempre dá no prejuízo.
Mas se você vier numa tarde dessas dizer que fui feita para me render, eu não vou ficar surpresa. Assim como para pedras, passarinhos, flores e nuvens, ouvir minha função depois de tantos anos soará um pouco óbvio. Mas se render é coisa para vítima de assalto. É propósito de gente sem propósito. Coisa de gente que ama sem medida, e amar sem medida é tomar xarope de cereja aos litros: bom, mas não faz bem. Rendição é assunto para fracos, para sonhadores, para os deficientes do bom e velho orgulho. É coisa de gente que ficou com um coração tão vazio, mas tão vazio, que cabe uma pessoa inteirinha ali.
E apesar dos pesares, esta é a minha função. O que me conforta por me dar um propósito, mas me judia por nunca fazer sentido. É o trabalho que eu mais sei fazer no mundo, mas que, inacreditavelmente, nunca consegui ensinar pra ninguém.
Vai ver eram pedras. Ou, sei lá, passarinhos.
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